A Primeira Guerra Mundial nas páginas de uma publicação infantil brasileira #3

 

A Primeira Guerra Mundial nas páginas de uma publicação infantil brasileira #3

O Tico-Tico, lançado em 1905, foi a revista infantil mais influente no Brasil durante as primeiras décadas do século XX. Conhecida como a primeira publicação exclusivamente dedicada ao público infantil no país, a revista não apenas entretinha, mas também educava e influenciava seus leitores. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, O Tico-Tico adotou uma abordagem intensa para tratar do conflito, apresentando representações que visavam educar e despertar o interesse das crianças para os eventos globais. Nunca é demais lembrar que durante a Grande Guerra, o Brasil, embora neutro até 1917, foi gradualmente envolvido no conflito devido a questões econômicas e políticas. As notícias sobre a guerra chegavam ao país por meio de jornais, rádio e revistas, criando um ambiente onde até mesmo as crianças estavam cientes do que acontecia no mundo. Nesse contexto, O Tico-Tico desempenhou papel importante na mediação dessa informação para o público infantil, adaptando as complexidades da guerra para uma linguagem mais acessível e atraente.

Uma das principais ferramentas de O Tico-Tico para difundir representações da guerra foi o uso de quadrinhos e ilustrações. Personagens populares da revista eram frequentemente retratados em situações que parodiavam ou refletiam aspectos da guerra. Essas narrativas, embora simplificadas e humorísticas, inseriam as crianças em um contexto de aventura e heroísmo, onde o conflito era muitas vezes retratado como uma série de desafios a serem superados com bravura e inteligência. Tais representações gráficas ajudavam ainda a tornar a guerra um tema compreensível e menos assustador para as crianças, estimulando a curiosidade.

Em meio a este clima beligerante, O Tico-Tico aproveitou para propagar a história das guerras e exércitos ao longo do tempo. Com linguagem simples, ilustrações caprichadas e se valendo de Chiquinho, personagem aclamado pelo público infanto-juvenil, o periódico manteve o interesse das crianças pelo conflito ao apresentar a evolução militar na História. Uma proposta simples e eficiente. A guerra, que dominava as manchetes das publicações destinada aos adultos, era massificada também na publicação infantil. Enquanto uma ferramenta educativa poderosa, O Tico-Tico ajudou a moldar a visão das crianças brasileiras sobre o mundo. Ao difundir representações da guerra de maneira acessível e envolvente, a revista conseguiu estimular o interesse pelo conflito de forma didática e formativa.

As ilustrações de O Tico-Tico, enfim, inteiravam as crianças a respeito do confronto ao mesmo tempo em que as envolviam emocionalmente, ajudando-as a desenvolver um entendimento mais profundo de diferentes temas relacionados à guerra. Essa combinação de entretenimento e educação fez de O Tico-Tico uma referência importante para a formação da consciência histórica e cívica das gerações jovens durante e após a Primeira Guerra Mundial. O conflito, ainda que distante do Brasil, foi parte da vida cotidiana de muitas crianças no início do século XX.

Acompanhe o histórico das guerras publicado em O Tico-Tico:






Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

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